O bebê chora. E às vezes quem precisa de colo é você.

Tem dias em que o bebê não para de chorar. E você já trocou, já deu de mamar, já embalou. Mas nada. Ele só se acalma no colo. Grudado. Colado. Como se você fosse o único lugar seguro do mundo inteiro.

E você fica ali, com ele nos braços, sentindo o peso. O cansaço. E uma coisa estranha, difícil de nomear, subindo do peito. Uma angústia. Uma urgência. Uma vontade de sair correndo.

Ou de chorar junto.

Faz pouco tempo, assisti a uma conferência da Laura Gutman aqui em Paris. Ela é uma das minhas grandes referências sobre maternidade — não sou psicóloga, mas sou mãe e doula, e passei por tudo isso. E o que ela disse naquele dia ficou gravado em mim.

Ela falou que, logo após o nascimento, a mãe e o bebê estão como se estivessem juntos dentro de uma piscina cheia de água. A temperatura é a mesma para os dois. Eles respiram no mesmo ritmo. Sentem no mesmo pulso. É como se fossem um só corpo, um só sistema nervoso, um só coração batendo.

Dentro daquela piscina, você sabe o que o bebê precisa. Você sente. Não porque alguém te ensinou, mas porque você está lá, imersa na mesma água.

Só que nem sempre a gente consegue ficar dentro dessa piscina.

A vida real nos tira de lá.

A falta de apoio.
O desespero de estar sozinha.
Os palpites de quem nunca ficou.
A pressão pra voltar a ser "como antes".
As ideias tortas sobre o que um bebê "deveria" fazer e o que uma mãe "deveria" sentir.

Historicamente, isso vem de longe. Durante gerações e gerações, foram criados controles, interferências, jeitos de separar mães de bebês. E, hoje, a gente vive num mundo em que é quase impossível ficar dentro dessa piscina. Porque não temos apoio; estamos sem uma rede que segure.

Você sabia que durante a maior parte da história da humanidade, cada bebê tinha no mínimo 10 adultos cuidando dele? Dez. Não era só a mãe. Era a aldeia inteira.

E hoje? Hoje é você. Sozinha. Ou com sorte tem a avó, uma doula que vem te ver de vez em quando. E assim você avança, tentando dar conta do impossível…

Então, quando chega a sua vez de ser mãe, é como se você colocasse só o pé dentro da piscina. Talvez uma perna. E já é um esforço enorme. Porque a sua mãe provavelmente também saiu dessa piscina. Não porque ela quis. Não porque ela não te amava. Mas porque também estava sozinha, perdida, sem apoio, sufocada. E quando ela saiu, a conexão se rompeu. E isso deixou marcas em você — marcas que você nem lembra, porque eram de quando você ainda não sabia falar, quando você nem sabia que era um ser separado.

E aí, quando o seu bebê chora no colo, ele não está só pedindo colo. Ele está pedindo algo que talvez ninguém tenha te dado. Algo que você mesma não sabe como oferecer.

E isso dói. Dói profundamente.

Porque você está sentindo, de novo, aquela solidão antiga. Aquela falta. Aquela necessidade que ninguém viu quando você era pequena.

E isso é um pouco do que Laura Gutman chama de encontro com a própria sombra. Aquela parte de você que ficou guardada lá embaixo, esperando. E que o puerpério acorda.

(Este conceito de a "própria sombra" é descrito no livro "A maternidade e o encontro com a própria sombra")

Tem bebês que choram porque estão doentinhos ou com alguma necessidade prática, claro. Mas tem bebês que choram porque você está precisando de colo. Porque o que ele sente é o que você está sentindo. Vocês ainda estão na mesma água, lembra?

E isso não é culpa sua.

E sobretudo, isso não é algo negativo para o bebê. Pelo contrário. Isso é uma oportunidade, daquelas que a vida oferece poucas vezes. Vocês dois estão prontos para esse trabalho de cura. É para isso que vocês estão juntos.

Não significa que você está falhando. Significa que você está chegando num lugar muito profundo. Num lugar que precisa ser tocado. Visto. Acolhido.

Sabe o que eu aprendi nesses anos como doula, acompanhando outras mães passando por isso? Que o puerpério pode ser muito difícil, muito incômodo. Mas também pode ser o lugar onde a gente cura.

Não todas as feridas. Não de uma vez. Mas já é alguma coisa.

Quando você segura o seu bebê chorando e chora junto. Quando você sente o cheirinho dele, abraça, beija, se permite conectar — mesmo no caos, mesmo no desespero — é ali que algo começa a se curar. Em você. E nele.

É por isso que eu insisto tanto em duas coisas: desacelerar e aceitar que é difícil.

Essas duas coisas são a sua estrela do norte. Quando você olha pra elas, mesmo sem ter a super rede de apoio, mesmo sem os pratos prontos na geladeira, mesmo tendo que fazer coisas que te atrapalham no pós-parto — você consegue entender o que está acontecendo. E isso já muda tudo.

O bebê não chora pra te incomodar. Ele não chora por birra. Ele não está tentando te “manipular”.

Ele chora porque precisa de alguma coisa. E às vezes, essa coisa é você. Inteira. Presente. Mesmo cansada. Mesmo confusa. Mesmo quebrada.

Então, você também pode chorar. Abraça. Sente. Conecta. Porque é na conexão que as coisas mais profundas se curam. E você está fazendo o melhor que pode. Com o que você tem. Com o que te deram. E já está fazendo melhor do que fizeram antes.
Isso já é muito.

Com muito carinho,

Marianna – doula e co-fundadora da Womb

 

 

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