Quando o pós-parto me ensinou que transformação é um presente

Um relato sobre o porquê decidi me tornar doula depois de viver a maternidade sem rede de apoio, mas com aceitação profunda

Antes de engravidar, eu não sabia o que era uma enfermeira obstétrica. Não tinha amigas com bebês. Nenhuma referência próxima de maternidade. Brasileira vivendo em Paris, modelo viajando constantemente, eu estava longe de tudo que poderia me preparar para ter um filho.
Mas tinha curiosidade. E tempo mental livre entre viagens para explorar essa curiosidade.
Comecei pelos livros sobre educação infantil: queria entender como eu gostaria de educar uma criança antes mesmo de decidir ter uma. E foi assim, quase sem querer, que entrei no universo da gestação, do parto e do pós-parto. Descobri sozinha, documentário por documentário, livro por livro, um mundo inteiro que se abria à minha frente.
Quando finalmente vi aquelas duas linhas no teste de gravidez, eu tinha informação. Tinha preparo. Tinha um marido maravilhoso ao meu lado. Mas ainda não tinha dimensão real do que estava por vir.
A ilusão do "perfeito"

Entrei na maternidade com uma visão quase ingênua: se eu fizesse tudo certo, as coisas seriam perfeitas. Obviamente, elas não foram perfeitas. Mas foram muito, muito boas.
Meu parto não foi perfeito, mas foi maravilhoso. Meu pós-parto não foi perfeito, mas foi transformador. Não tínhamos ajuda para arrumar a casa. Não preparamos marmitas congeladas. Não fizemos muitas das coisas que os guias recomendam (e que podem, sim, ajudar muita gente).
Éramos três: eu, meu marido e nosso bebê. E a coisa mais essencial que eu tinha não estava em nenhuma lista de preparação. Era aceitação.
Aceitar que mudar faz parte
Eu sabia que iria mudar. Li em tantos lugares sobre a profundidade dessa transformação que decidi deixar a porta aberta, mesmo achando, lá no fundo, que não mudaria "tanto assim".
Mas mudei. Completamente. Sou outra pessoa hoje.
E percebi algo curioso: passamos a vida buscando desafios. Viagens difíceis, projetos ambiciosos, montanhas para escalar. Procuramos crescer por meio do desafio. Mas quando chega a maternidade, queremos que tudo continue igual. Queremos o amor incondicional sem a transformação que ele exige.
Como esperar criar um ser humano, nutri-lo como parte de nós e depois soltá-lo para voar pelo mundo, sem que isso nos mude profundamente?

O tempo parou (e foi lindo)
Meu pós-parto foi maravilhoso porque eu aceitei que o tempo parou. Parei de olhar o relógio. Segui o ritmo do meu bebê. Segui o ritmo do meu corpo. Tive a sorte de poder parar de trabalhar totalmente por 4 meses e depois voltar no meu ritmo.
Cometi erros, sim. Não comi o suficiente achando que tinha que voltar a ficar em forma rapidamente, por exemplo, e ainda lido com as consequências disso. Mas vivi algo raro: um pós-parto que nutriu minha alma. Que me fez crescer. Que me mostrou a beleza da vida de um jeito que eu nunca tinha visto antes.
Foi nesse período, com a pele ressecada pelas inúmeras lavagens de mãos e pela exaustão, que criei o que viria a ser nosso primeiro produto: o Creminho. Não tinha grandes ambições. Era apenas uma ferramenta, um cuidado simples que se tornou central na minha história de mãe.
Porque me tornei doula
Quando saí da minha bolha de pós-parto e olhei ao redor, vi que nem todas as experiências eram como a minha. Vi mulheres exaustas, sozinhas, perdidas. E pensei: se eu consegui viver isso de forma tão bonita, mesmo longe da família, mesmo sem grande rede de apoio, então é possível. É possível sim.
Foi aí que me tornei doula. E foi mais tarde, quando meu irmão e minha irmã também se tornaram pais, que nasceu a WOMB. Descobrimos juntos que aquele CREMINHO não era incrível só para a nossa família, ele era necessário para todas as famílias com filhos que usam fralda.
Não porque meu caminho seja o único ou o melhor. Mas porque descobri que com informação, ferramentas e, principalmente, aceitação, que o pós-parto pode ser mais do que suportável. Ele pode ser incrível. Ele pode ser uma oportunidade.
A oportunidade que mora no desafio
Existem pessoas que escalam montanhas impossíveis, que pulam de paraquedas, que buscam experiências extremas para sentir um gostinho da transformação profunda.
A maternidade te oferece isso naturalmente. Seu corpo, seus hormônios, seu coração, tudo conspira para te transformar. É um dos maiores desafios da vida, sim. Mas também uma das maiores oportunidades de crescimento.
O pós-parto é desafio. Mas pode ser lindo. Pode ser vivido com tranquilidade. Pode ser suave e, ao mesmo tempo, profundamente poderoso.
E é por isso que a WOMB existe. Para acompanhar você nessa jornada. Para oferecer informação, ferramentas e, principalmente, a certeza de que é possível viver a maternidade com beleza, mesmo nos dias difíceis.
Porque transformação não é perfeição. Transformação é vida acontecendo.
E que privilégio poder estar aqui, ao seu lado, nessa travessia.
Com carinho,
Marianna – Doula e Co-fundadora da WOMB


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